Quinta-feira, Maio 26, 2005
O homem e o mito...
Por Osho, do livro ''O homem que amava as gaivotas''
Aristóteles definiu o homem como um ser racional. O homem não é racional, e é bom que não o seja. O homem é 99% irracional, e é bom que seja assim porque, através da irracionalidade, tudo o que é belo e amável existe. Através da razão, matemática; através da desrazão, poesia. Através da razão, ciência; através da desrazão, religião. Através da razão, mercado, dinheiro, rúpias, dólares; através da desrazão, amor, canção, dança. Não, é bom que o homem não seja um ser racional. O homem é irracional.
Muitas definições foram tentadas. Eu gostaria de dizer que o homem é um animal que cria fofoca. Ele cria mitos ¿ todos os mitos são fofocas, puranas [estórias simbólicas das escrituras sagradas hindus]. Ele inventa religião, mitos, estórias sobre a existência. Desde o começo da humanidade, o homem tem inventado uma bela mitologia. Ele inventa Deus. Ele inventa que Deus criou o mundo; e ele inventa lindos mitos. Ele tece, vai tecendo cada vez mais novos mitos, cada vez mais. O homem é um animal que cria mitos; e a vida será absolutamente maçante se não houver mitos em torno dela.
Este é o problema da era moderna: todos os mitos foram abandonados. Os tolos racionalistas protestaram demais contra eles. E foram abandonados porque, se você protesta contra um mito, o mito é indefensável. Ele não pode se defender; é muito vulnerável, muito delicado. Se você começa a lutar com ele, você o destruirá, mas, ao destruí-lo, destruirá uma coisa linda no coração humano. Não é o mito, o mito é simbólico ¿ profundas são as raízes no coração. Se você matar o mito, matará o coração.
Bem, em todo o mundo, esses mesmos racionalistas que mataram os mitos sentem que agora não sentido na vida, não há poesia, nenhuma razão para ser feliz, nenhuma causa para celebrar. Toda festividade desapareceu. Sem um mito, o mundo será só uma praça de mercado; todos os templos desaparecerão.
A menos que você seja iluminado, não pode viver desse jeito; do contrário, você perceberá que está sem sentido, será tomado por uma profunda ansiedade e a angústia invadirá seu ser. Você começará a cometer suicídio. Começará a encontrar um jeito ou outro ¿ drogas, álcool, sexo, qualquer coisa ¿ de se afogar para se esquecer de si mesmo porque a vida parece sem sentido.
Os mitos têm significado. O mito nada mais é que uma fofoca bonita, mas ele ajuda você a viver. Se você não é capaz de viver sem fofoca, ele o ajuda a viajar, a percorrer o mundo. Ele cria uma atmosfera humana à sua volta; do contrário, o mundo é muito árido. Pense nisto: os hindus vão ao rio, vão ao Ganges ¿ eles o veneram. Isso é um mito; do contrário, o Ganges é só um rio. Mas, através de um mito, o Ganges se torna a mão, e, quando um hindu vai ao Ganges, isso é um enorme prazer para ele.
A pedra em Meca, a pedra de Kaaba, nada mais é que uma pedra. É um cubo, por isso é chamada ka¿bah, que significa ¿cubo¿. Mas você não pode saber como um mulçumano se sente quando vai a Kaaba. Uma tremenda energia desperta. Não que Kaaba esteja fazendo alguma coisa ¿ não há nada, é só um mito. Mas, quando beija a pedra, ele não está andando na Terra; ele se mudou para outro mundo, o mundo da poesia. Quando ele caminha em direção a Kaaba, está caminhando em torno do próprio Deus. Em todo o mundo, os muçulmanos rezam; o ponto deles é Kaaba. A direção para a qual se voltam difere, dependendo de onde eles estão: uma pessoa rezando na Inglaterra estará olhando para Kaaba; uma pessoa rezando na Índia estará olhando para Kaaba; uma pessoa rezando no Egito estará olhando para Kaaba. Cinco vezes por dia, os maometanos rezam em todo o mundo, circundam o mundo inteiro, e seu olhar se volta para Kaaba ¿ Kaaba se torna o próprio centro do mundo. Um mito, um lindo mito... Naquele momento todo o mundo está cercado de poesia.
Os seres humanos dão significado à existência; é isso que um mito faz. O homem é um animal que cria fofoca. Pequenas fofocas ¿ sobre a vizinhança, sobre a mulher do vizinho... ¿ e grandes fofocas, cósmicas, sobre Deus. Mas as pessoas gostam disso.
...
Deus deve gostar demais de estórias; ele mesmo é um criador de mitos, deve gostar muito de estórias. Ele foi o primeiro que começou com toda a fofoca!
Sim, a vida é uma fofoca, uma fofoca momentânea no silêncio eterno da existência, e o homem é um animal que cria fofoca. A menos que você se torne um deus, deve gostar de fofocar: deve amar as estórias de Rama e Sita, de Adão e Eva, do Mahabharata; deve amar estórias gregas, romanas, chinesas. Existem milhões delas ¿ todas lindas.
Se você não puser lógica nelas, elas podem revelar portas interiores, podem abrir mistérios interiores. Se puser lógica nelas, as portas se fecham; aí, aquele templo não é para você. Ame as estórias. Quando você as ama, elas revelam mistérios. E muito se esconde nelas; tudo o que a humanidade encontrou estava escondido nas parábolas. É por isso que Jesus vai falando em parábolas, e Buda vai falando em estórias. Eles todos adoram fofocar.
Ricardo -
5:24 PM
Divague comigo:
Sexta-feira, Maio 20, 2005
A lucidez perigosa
Clarice Lispector
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
¿ já me aconteceu antes.
Pois sei que
¿ em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade ¿
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
Ricardo -
5:25 PM
Divague comigo:
Quarta-feira, Maio 18, 2005
Se Não Falas
Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e agüentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.
Rabindranath Tagore
Ricardo -
11:29 AM
Divague comigo:
Sexta-feira, Maio 13, 2005
Minha vontade pediu cama... desencantou-se, afundou-se em lençóis de recalques e abraçou-se a travesseiros de dor.
Dormiu não querendo acordar, desejando a morte de seu hospedeiro e fechando os olhos ao amanhecer dos sonhos.
Quedou-se em melancolia, recordou o passado, desatino, e em mágoas, sozinha, permitiu-se chorar, calada.
Na escuridão da alma, onde tudo parece escuro, negro, sombrio, pesado e constante, quis alento, acolhimento, um afago mórbido da noite adentro.
Tudo é só silêncio, nada mais, só essa suspensão que parece eterna, parece infinda...
E mesmo que queira abrir os olhos... não pode.
Seus olhos estão vazados.
Como vazado está meu instante de vida...
Ricardo -
8:26 AM
Divague comigo:
Sexta-feira, Abril 29, 2005
Quero falar de minha revolta íntima, dessa dor que cala as palavras e é todo gesto, é todo implosão avassaladora, que arrebata, arrastando passado, presente e futuro de medo, de coação, de freio, de personagens reais.
Falo do meu momento, egoísta, sozinho, irrequieto, meu.. e não espero que compreendam, sequer ao menos que conjecturem entender... é meu... infelizmente.
A dificuldade também é minha, e nesse claustro que me fecho estou me permitindo ser quase vil, quase quase desprezível... porque é vivendo meus pesadelos que posso acreditar em sonhos de paz... é expurgando meu umbral interno que vislumbro paragens menos densas e mais promissoras...
O silêncio dos que me rodeiam é meu melhor lenitivo... não o silêncio ausente, no descaso da indiferença, mas o silêncio do tempo que preciso pra fomentar minha razão e aplacar meus desatinos...
Não, eu não preciso nem quero a crítica, o que já sei, o que já ouvi pelos olhos e bocas de todos os que me amam...parece frio, parece pequeno... mas creia, não o é, acredite.
Preciso, se é que preciso, desse olhar manso e calmo que descortina nossas ilusões e levanta o véu da própria infantilidade, a cumplicidade revestida de sutileza e, parodiando, daquele amor que não se nomeia... simplesmente é!
A ingenuidade é minha, somente minha... e tudo que decorre dela é meu, somente meu.
O tempo é chegado... O caos que vejo ao redor e o tanto que critico são caos e defeitos que eu exibo, despudoradamente.
Preciso de mim, mais do que nunca...
Ricardo -
11:59 AM
Divague comigo:
Quarta-feira, Abril 27, 2005
Já sou neutro, quase santo, e meu pranto companheiro, sem rodeio nem maneios me procura...
Torvelinho d´alma
Esgarçando meus sinceros desejos
Arregaçando as mangas do vento, tempo infindo
Que penetra, sorrateiro, pensamentos d´outrora
Pegando-me a surpresa num enlace doloroso
Refinando essa audácia de cadência retilínea
Perscrutando entrelinhas
De meus ''eus'' desatinados
Onde o vento me sussurra, senão nas bocas vacilantes?
Onde o mar se me borbulha, seu dossel de amores náufragos?
Não mais a tinta fresca das paredes de meu sonho... um quase pesadelo na madrugada
Um susto constante, inverso ao passante que claudica, pedindo seus favores
Como dama, como amante, debruçando seios de doçura
Sigo inerte, imolado, em teus lábios de puta.
Ricardo -
6:06 PM
Divague comigo: